Kungokhala

Durante dois anos estive a trabalhar como voluntário numa Missão no norte de Moçambique, através da Organização Não Governamental – “Leigos Para o Desenvolvimento”.

Embora, não fosse esse o objectivo do meu trabalho, tive a graça de poder ir retratando a vida das aldeias que rodeavam a Missão.

Quando regressei, ao olhar para todas essas fotografias senti que não podia deixar de as mostrar. Foi assim que nasceu este livro.

Era preciso agora dar-lhe um título… Mas aquilo que parecia simples e óbvio, afinal não o era. O que me terá marcado mais? As inúmeras experiências vividas, muitas sem prazo para se tornarem assimiladas; as pessoas que conheci e pelas quais guardei uma grande amizade; a natureza que entendo agora porque lhe chamam – Mãe.

Como encontrar a palavra que abarque tudo aquilo que eu não consigo dizer sobre estas imagens?

As crianças “à solta” quase desde os primeiros dias, sempre com um sorriso tão espontâneo, frágeis e desprotegidas muitas vezes por indolência dos seus; o trabalho na terra sempre tão duro e dependente do céu; as estradas serpenteando por entre as aldeias, rompendo o capim e as terras cultivadas; a vida que se enaltece de uma forma tão particular nas cerimónias religiosas; a música e o seu ritmo que provoca um gozo enigmático…

Tudo isto guardo em mim, em imagens, e poucas palavras.

Um dia, durante as férias escolares, encontrava-me no pequeno jardim junto à casa da Missão. Os alunos tinham partido para casa onde iriam ajudar as suas famílias no trabalho do campo. Vejo aparecer o Luciano, um dos alunos com quem mais conversava, vestido a rigor de casaco e gravata, com um saco de batatas às costas. Tinha feito três horas a pé só para me visitar e para me oferecer aquele presente.

Quis saber o porquê da sua “viagem”, e o Luciano respondeu-me:
- “Aphunzitsi!… kungokhala!”, que quer dizer: -”Professor!… Só ficar!”.

Foi em Moçambique, onde eu também aprendi a “só ficar”; a saborear o tempo.

Filipe Condado
Lisboa, Junho 2004

Luciano